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sábado, 7 de janeiro de 2017





Romilson Gomes Cabi é  Graduando em Letras – Língua Portuguesa na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Membro do Grupo de Língua e Cultura Crioula de Juventude Guineense na Unilab (Nô Djunta Mon), membro de Academia de Letras de Estudantes Guineenses de Letras da UNILAB e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). Interessa-se em estudos literários dos escritores lusófonas, principalmente a Literatura Guineense.


A VIZINHA NHOMBA

Saiu de manhã bem cedinho com o destino à praça, para o ministério da justiça concretamente no departamento de identificação civil, afim de fazer um novo bilhete de identidade. O seu nome já se encontrava na lista das pessoas que iriam ser recebidas e atendidas conforme o protocolo do agendamento. Isso faz parte dos procedimentos. Para conseguir o agendamento o pedido tinha que ser antecipado uma semana ou mais e acompanhado de várias papeladas requisitadas.
Com muito sacrifício, chegou muito cedo com o corpo todo suado e transpirado de tanto pulo e desvio dos buracos e esgotos das terras batidas que ligava Antula e praça. Muito embora não era a única nesta situação. Chegou antes dos próprios funcionários, porém foi a quarta pessoa na fila depois de duas senhoras de pelo menos 22 anos de idade, as mais novas que ela e um homem gigante que tinha característica de um barqueiro - era forte, robusto, com um ar estranho de não dar confiança e ainda vestido de  um fato enorme numa época de muito calor.
Nhomba cansada daquela vida. Fazia tudo que o marido recomendava, para que um dia pudessem estar juntos novamente. Mas até então, nada parecia dar certo. Desde que o marido viajou para terra dos brancos, nunca poupou esforços de tentar o caminho para a esposa. Muitas papeladas e dinheiros foram gastos no processo, mas até então não conseguiam entender o porquê de tudo não corresponder com expectativas. O marido depois de muitos cálculos e conselhos dos colegas decidiu mudar de nome a Nhomba. Talvez ficaria mais fácil o processo. Nhomba deveria fazer um novo bilhete de identidade com um novo nome. Porque parecia ser que o sistema é que não está reconhecendo o seu nome. Já que é estranho por pessoas que fará para as máquinas -  pensamento do marido. Ele já tinha ouvido que muitas pessoas que mudaram de nome, deram bem no processo, então a sua esposa tem que fazer o mesmo.
Mas qual seria o nome? Que nome a Nhomba N’busse conseguiria assimilar facilmente sem atrapalhar o processo. Vitória, Elena, Vilma, Júlia, Sónia, Daniela, são os nomes propostos pelo marido, nomes das suas amigas na outra banda.
̶ Eu prefiro a Daniela, me parece mais fácil entre outros  ̶  disse a Nhomba.
̶ E para o sobrenome...?
̶  Daniela N’busse ficaria muito bem, eu quero manter com a meu sobrenome.
̶  Não, não. Será que você ainda não intende?! não é para ser nenhum nome de terra que fará o seu sobrenome.
̶  Hmmm!!! As coisas já estão a ficar cada vez mais chato para o meu gosto.
̶  É por isso que devemos fazer a coisa certa desta vez.
̶  Mas me colocar um outro nome não parece tão certa...
̶  Nhomba, escuta!... O meu desejo não era você trocar de nome... eu sei que é difícil para você, mas está ficando também muito mais difícil para mim... deixar... deixar o meu trabalho para tratar das papelaaadas tooodos os diiias não me parece também fácil...
̶  Ok, ok, eu entendo, só que...
̶  Só que o quêêê?
̶  Mario, isso é difícil para mim também, os meus pais que me deram esse nome e significa muito para mim. E como posso esquece-lo?.
̶  Você não vai esquecer do seu nome e ninguém vai esquece-lo, porque ninguém vai te chamar de  Daniela, é só um disfarce para que você possa vir estar comigo. É só isso...!
Nhomba não concordava nem tão pouco com a decisão, mas sentiu que era necessário. Registrou-se como Daniela Gomes. Daí faltava somente bilhete de identidade para poder mudar todos os outros documentos.
Depois de muito tempo de espera, a porta abriu e uma atendente anunciou que não era preciso aquela fila, mas sim os nomes vão ser chamados de acordo com a lista.
Nhomba não ficou contente com isso. Ela teve muito trabalho de levantar bem cedinho para aquela fila e agora muitos que chegaram depois dela estão a ser chamados e atendidos  ̶   isso não está certo  ̶  comentava com um, ora com outro, ficou descontente com a nova regra.
Hora fora, hora a dentro muitos nomes já foram chamados e chegou a vez da Daniela Gomes.
̶  Daniela Gomes...! Daniela. Quem é a Daniela Gomes? Por favor alguém sabe se a Daniela está aqui!? - Disse atendente.
A Daniela foi chamada várias vezes e ninguém era. A metade das pessoas agendadas já foram atendidas até no horário do almoço. A Nhomba ficou frustrada. Pensava que ia resolver muito sedo e voltar para a sua vida de bideira, até então se encontrava fora da identificação sem resolver nada.
Não tinha nada de comer, a não ser uma fatia de cuscuz e mancara que levava consigo. O trabalho devia ser retomado só as 13h30. Cansada, comeu a sua fatia de cuscuz com o resto da mancara e depois bebeu a água numa torneira que estava no jardim do ministério.
Primeiro nome a ser chamado depois da retomada foi da Daniela Gomes. Quando atendente anuncio, mais uma vez a Daniela não estava. Onde foi que essa Daniela foi se meter? Ela vai perder o seu dia de atendimento  ̶  comentavam algumas pessoas. Naquela época era difícil conseguir um agendamento, se conseguir e  você não aparecer, torna-se muito mais difícil conseguir outro agendamento.
No horário do encerramento, uma atendente reparou que sobrava somente um nome na lista, que não foi atendida e também tinha uma senhora ainda sentada na escadaria. A atendente dirigiu a ela:
̶  Com licença minha senhora, o que você faz aqui?
̶  Vim fazer o meu bilhete de identidade.
̶   Você é...?
̶   Nhomba, minha senhora. O meu nome é Nhomba Nbusse.
̶  Mora em que bairro?
̶  Antula... Antula Bono.
̶  Que estranho?!
Todas as informações batiam, menos do nome. O que será que aconteceu? Será que confundiram e colocaram o nome da outra pessoa no lugar dela?
̶  Está muito confuso aqui, os dados conferem, mas o nome não... aqui eu tenho a Daniela Gomes... você conhece?- Perguntou atendente.
A partir de então é que as coisas começaram a se tornar mais claro para ela. Afinal estava sendo chamada o dia todo e nem percebia. Quando a cabeça não está no lugar sempre acontece uma coisa dessa. Nhomba ficou assustada, envergonhada e culpada. Já tinha esquecido que mudou o nome oficialmente. Não era mais Nhomba Nbusse que tratava nas papeladas, mas sim Daniela Gomes. Não podiam mais atende-la porque já estava em cima do horário do fecho das atividades. Portanto, voltou para casa sem resolver nada. O dia foi nulo para ela sem produzir ou resolver alguma coisa.

Por sua sorte, a atendente a colocou na lista do dia seguinte por pena que sentia por ela. No outro dia fez as mesmas trajetórias para a praça, mas com a música do seu novo nome na cabeça para nunca mais esquece-lo. Nunca contou isso a ninguém e nem para o seu marido por causa da vergonha. o segredo ficou guardado com sete trancas só entre ela e atendente.


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