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domingo, 12 de fevereiro de 2017



Vaz Pinto Có (Afu) é Licenciando em Letras Língua Portuguesa na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB). Membro daAcademia Afro-cearense de Letras (AAFROCEL). 
Em 2015 participou na Coletânea Novos Escritores da Academia Afro-cearense de Letras, em 2016 participou nolivro O que contam os sentidos do projeto ateliê com conto Tragédia da Feijoada.  Além do conto gênero literário preferido.  Vaz escreve também, poesia, crônica, memorial e diálogo. 





Baloba não é Yrãn *
       Meu patrão, prefiro que colonize minha casa em vez de colonizar minha cabeça. Quero estar livre para pensar, refletir e falar da minha casa e não você a falar dela.  Patrão!  
Embora eu soubesse que nesta nação a fala de uma mulher não é ouvida.  Falo que chegou a hora de começarmos a desamarrar bocadinho-bocadinho nbludju de mintida que nhu Joaquim deixou neste tchon.
 Ouvi dizer que toda a história tem um pouco de sal. Quando mais escrita por alguém que não conhece bem a história que está a escrever. Tudo será sal. Mesmo se colocar um pouco de cebola, alho, gosto, pimenta e limão ou se colocar açúcar e mel nela, Infelizmente, a história será uma salina sem dúvida.
Por isso, é melhor que filho de tchon contasse a história do seu chão. Embora coloque um bocadinho de sal, esta não será suficiente para fazer a história salgar. Em vez de Joaquim que quer escrever tudo, mas não sabe nada, filho da terra sabe um pouco sobre a história do seu chão.
Camarada leitor, talvez o título deste texto lhe surpreenda você deve estar habituado de ouvir que Baloba é templo tradicional onde se faz cerimônia dos yrans ou é lugar dos satanases. Eu também ouvia essa mentira.  Porém, um dia minha avó acabou-me com este pensamento equivocado, hoje quero compartilhar contigo como meu irmão e minha irmã que precisa ser esclarecido sobre esse assunto de conectar a Baloba aos yrans.
 Logo a priori, quero lhe dizer que a verdade é mutável, ou melhor, ela muda de acordo com o tempo.  Porque o que era verdade ontem pode não ser verdade hoje. Nosso pensamento também muda de acordo com o tempo.  Dessa maneira, devemos olhar a verdade como um objeto maleável que sofre mudança e não como uma doutrina.
Camarada leitor, eu sei que você está a perguntar neste momento: se Baloba não é yran o que realmente ela é? Porém minha resposta seria o seguinte: Baloba é Baloba e yran é yran, ou seja, não é a mesma coisa como muitos estão a confundir.  Por exemplo, na etnia Pepel nomeadamente Pepel de Biombo o vocábulo Baloba significa bol, enquanto que yran significa *ossay. Por isso, cada um deve ser colocado no seu caixote e não num mesmo caixote.
Meu leitor e minha leitora, queiramos ou não a Baloba é local sagrada tal como a Igreja. Ela é templo da reza como a Igreja. Como já tinha dito, é lugar onde se faz cerimônia. Esta que levou a Baloba a ser conectada sempre a yran. No entanto, quero saber, será que todo local onde se faz cerimônia é lugar dos yrans? A Igreja é lugar dos yrans? Visto que se faz também cerimônia na Igreja.
Por isso, camarada, você precisa saber que tipo de cerimônia se faz na Baloba para refletir dentro de si sobre essa temática que ninguém quer debater. No entanto, coloco-me a debatê-la. E estou lhe convidando também para participar neste debate. É importante dizer que meu objetivo com esta narrativa não é para lhe obrigar que a partir de hoje você vá derramar cana na Baloba ou matar porco para fazer cerimônia. Eu, sendo uma mulher, não tenho poder de obrigar ninguém a fazer nada nesta pátria, talvez se eu fosse um homem. Pois todo mundo sabe que nesta terra são os homens que mandam e desmandam. Que dia você já ouviu que uma mulher manda aprisionar, torturar e até matar neste chão? Nunca! São os homens que fazem essas barbaridades irracionais só para roncar matchundadi.
Talvez alguém pergunte o que as mulheres fazem neste país? Então, eu respondo: não são as mulheres que fazem comida e levam para prisão? Quando um homem manda fechar outro homem ou mulher? Não são as mulheres que dormem com paciente no hospital quando homem tortura? Quando um homem mata não são as mulheres que choram? Temos mais lágrimas do que os homens? Por que quando eles matam não têm lágrimas para chorar? Ficamos a chorar na casa de tchur-tchur, enquanto eles a jogarem as cartas, a dama e o dominó. Ainda a beber cana, vinho palmo, vinho de caju, cerveja e vinho tinto. Também os homens mandam matar. São as mulheres que enterram os cadáveres. Colocamos mais panos no defunto do que os homens.  Talvez seja por isso que os homens nunca vão parar com malvadeza de matar, torturar e aprisionar nesta pátria sem razão nenhuma. Porque são as mulheres que sofrem com as consequências dos atos deles. Porra! Chega de brutalidade e matchundadi nesta pátria! 
Também não posso obrigar ninguém. Cada pessoa deve escolher livremente a religião que quer. A religião não depende da raça, nem da cor de pele, nem da classe social. Eu escolhi a religião Católica por minha decisão própria. Você também tem este direito, camarada leitor.  Porque temos um só Deus. Cabe a cada um decidir qual será o caminho que ele seguirá por reino do Céu. Ser-se-á aquele de baixo ou de cima? Esta é uma decisão individual. Desse modo, nada de vangloriar que a sua religião é melhor, por favor, nada disso.  
 Portanto, quero que hoje em diante você passe a diferenciar Baloba do yran.  Como maioria está fazendo até agora, tenha consciência de que Baloba não é lugar dos satanases, mas sim uma casa de oração da nossa etnia. Entenda Baloba como um lugar de louvor a Deus e nossos ancestrais, ou melhor, nossos Santos. E não como casa dos demônios e deuses ou uma coisa tradicional. Olha com bons olhos os indivíduos que fazem cerimônia na Baloba. Este é o caminho que eles escolheram para entrar no reino do Céu. Então, merecem o seu respeito.
Para quem derramava cana na Baloba, mas hoje pretende seguir a região Católica ou Protestante... Pode seguir esse caminho livremente. No entanto, sem queimar a Baloba como já vi alguns a fazê-la. Já conheceu um queimador da Baloba vivo? Eu respondo, Infelizmente, não há.  Desse modo, se queimasse a Baloba, lamento muito e aproveito para lhe desejar uma boa viagem ao mundo dos defuntos. Porque, queimou a sua cabeça, ou seja, matou a sua cabeça. Mesmo se orasse mil Pai-Nosso e mil Ave- Maria.
 Infelizmente não terá a salvação. O seu destino será outro mundo, ou seja, mundo dos mortos. Como é possível queimar uma casa de Deus para ir a outra casa de Deus? E acreditar que Deus irá lhe salvar! Está enganado, Ele irá lhe virar as costas. Pois você queimou a morada Dele. Portanto, refleta e pense se não queres derramar cana na Baloba. Pelo fato já não acredita neste caminho, não é motivo de colocar fogo na Baloba. Devido que tem gente que continua a acreditar nela.
No meu entender, maior ignorante é quem julga sem conhecer aquilo que julga. Eu batizei-me e me crismei. Costumo frequentar as missas todos os domingos.  Participo nas festas dos Santos e das Santas na minha Igreja. No entanto, isso não devia me tornar uma pessoa irreflexiva e, a cima de tudo ignorar a cultura dos meus *avós, só porque assimilei outra cultura. Hoje, estou muito triste por desvalorizar nossa cultura no passado. Então, sem mais rodeio, vamos ao enredo.
Eu desde infância costumava ver minha avó, a mãe do meu pai, a ir para Biombo a fim de fazer cerimônia na Baloba de Ndjirapa e Ntomam. Eu olhava para ela como uma pessoa atrasada, antiquada, uma pessoa que não tinha religião, quem anda a adorar os demônios. Além disso, para mim, minha avó seria a primeira pessoa a ir para inferno porque ela não estava a seguir caminho de Deus. Era uma mulher sábia, amável, inteligente. Tinha quarta classe do tempo colonial. Conhecia muito bem coisa da Igreja. Pois frequentou a catequese no período da colonização. Não obstante, ela não chegou a batizar.
Numa certa manhã do ano 2000, ela tinha viagem marcada para Biombo com propósito de fazer, mais uma vez, cerimônia de porco na Baloba. Ela estava prestes a partir, então ganhei a coragem e disse-lhe:
- Vovó, você anda fazendo cerimônias em yrans demais.
-Minha neta, a cerimônia que vou fazer é na Baloba não em Yran! *
-Credo, vovó! Será que Baloba não é yran?
-Não, não é minha neta! Baloba e yran não são as mesmas coisas como você está a imaginar!
- Então Baloba é o quê, Vovó?
- Boa pergunta, Baloba é a nossa Igreja, minha querida neta. Ou seja, Baloba é a casa de Deus para nós. É por isso que a chamamos kuu Utchi, que significa (casa de Deus)
- Nossa! Baloba é vossa Igreja? Como assim, vovó? Pois ouvi que Baloba é lugar *tradicional onde se faz cerimônia dos yrans, ou melhor, Baloba é lugar dos satanases. 
- Minha neta, toda a nossa cultura é coisa dos yrans, satanases ou tradicionais.  * Por exemplo, Kata, Toka-tchur, Ianda-kabaz e Cassamenti por aí vai. Um dia você já parou para pensar sobre isso?
-Não, nunca pensei.
- A cabeça não serve somente para fazer rasta. Porém, para pensar e refletir também. Quem lhe falou que a Baloba é yran ou que é lugar dos satanases?
- Li num livro escrito por os colonizadores.   
- Engraçado os caras são demais.  Escrevem até aquilo que não sabem nem um bocadinho. Pensava que você leu num livro de um fidju di tchon.  O que eles sabem sobre Baloba? Para afirmar que na Baloba fazemos cerimônias dos yrans. Ainda é lugar dos satanases? Maior inteligência de uma pessoa é a humildade. Isso quer dizer quando alguém lhe perguntar algo que você não sabe a sua resposta deve ser o seguinte: não sei e não inventar a resposta.  Isso é burrice não inteligência. Quem deles já foi um dia a Baloba?
- Vovó um colonizador pode sentar aqui em Bissau num hotel e escrever sobre Baloba, sem precisar ir por aí.
- Meu Deus! Como é possível alguém vir para nossa terra e sentar num hotel bebendo uísque, cerveja, vinho tinto e branco, comendo carne de vaca, cabra e porco para escrever sobre a nossa Baloba sem passar, pelo menos, em uma só Baloba? Como será esta história?
- Vovó, talvez seja uma história com muito sal.
- Nada de talvez, só pode ser mesmo uma história de muito sal, minha netinha! Então, chegou a hora de falarmos por nós em vez de alguém falar sobre nos.  
- Sinceramente! Contudo, vovó, diga-me qual é cerimônia que vocês fazem na Baloba?
-Fazemos cerimônia na Baloba para pedir nossos ancestrais que roguem por nos na mão de Deus. Porque a Baloba é casa de Deus. Quando digo Deus é Deus mesmo com D maiúscula e não com d pequeno como alguém quer que seja assim. Só para legitimar um** pensamento equivocado sobre coisa da nossa terra.   Você já ouviu falar de Ndjirapa Có?
-Não, quem é ele?
-Foi ele quem fundou Biombo, ou melhor, ele foi primeiro habitante de Biombo. Para nós, Ndjirapa foi enviado por Deus para criar uma nova terra. A esta que chamamos hoje de Biombo, ou seja, terra de Ndjirapa. Também podemos dizer que ele é um profeta que vem neste mundo para deixar uma nova herança aqui na terra. Sabia que há uma Baloba que tem nome dele em Biombo?
-Não, não sabia, vovó!
-Então, fique sabendo a partir de hoje que toda Baloba que há aqui em Bissau até em Biombo tem nome dos nossos ancestrais. Como por exemplo: Baloba de Ndjirapa, Ntoman, Djoku, Malé, Olassu e por aí vai. Esses são homens e mulheres que viveram neste mundo. Embora para nos não são indivíduos normais como nós, são pessoas que Deus deu poder com propósito de nos proteger na terra. É por este motivo que digo Baloba não é yran.
Porém, é local da reza para pedir a Deus que nos livre do pecado. Por isso, quando alguém peca, Baloba é lugar da confissão do pecado, pedindo a intercessão dos ancestrais que Deus aceite perdoá-lo/a. Quando uma doença maldita está a espreitar a nossa moransa, rezamos na Baloba para pedir Senhor Deus que nos livre contra essa doença. No tempo de Ianda-Kabaz, andamos de Baloba à Baloba para louvar a Deus por vida que Ele nos deu gratuitamente. E agradecemos nossos ancestrais, por serem nossos advogados junto a Deus.
- Vovó, Ndjirapa é vosso Jesus Cristo? *
- Ndjirapa foi um homem muito poderoso. Ele fazia milagre em Biombo. Desse modo, posso dizer sim. Ndjirapa é nosso Cristo. Balobeiro e Balobeira são nossos padres. Como você reza na Igreja dizendo: Cristo rogue por nós, é assim também, que eu rezo na Baloba dizendo: Ndjirapa rogue por nós na mão de Deus.
- Vovó! Antes dos colonizadores vieram para cá, vocês já sabiam que existe Deus?
- Realmente, quando eles chegaram aqui na nossa terra, nossos avôs e nossas avós já tinham sabido que existe alguém que é superior a todos nós homens e mulheres, aqui na terra, qual devemos obedecer.
-Muito obrigado, vovó! Por ter acabado com meu preconceito sobre a nossa cultura.
-De nada, vocês meninas e meninos de hoje apesar de assimilaram a cultura do colonizador, este não deve ser motivo de menosprezarem a nossa.
Então, senhor Joaquim, eu lhe peço se quiser falar da Baloba tem que tirar o seu pé do hotel, ir ao terreno e pesquisar sobre ela. Não sentar no hotel em baixo do ar condicionado para inventar as suas mentiras sobre nossa cultura. Reafirmo, realmente, como eu já tinha falado, é bom que o filho da terra conte a história do seu chão como maneira de livrarmo-nos da história tóxica de Joaquim. No entanto, como é sabido, quando filho da pátria escreve a história, esta não é lida. Pois preferimos aquela de muito sal escrita por um colonizador em vez daquela que tem pouco sal escrita por filho de tchon. Porém, isso não deve ser o motivo de eu deixar de escrever a nossa história. Porque uma coisa é certa, não quero ser mais papagaio dos colonizadores. E você?
Confesso que afinal eu era uma pessoa inocente, cega e burra. Eu Estava falando mal da Baloba sem saber nada sobre ela. Não existe nenhum produto fabricado que não passará de prazo um dia. Mentira dos colonizadores já era. Não tem mais validade. Este meu diálogo com minha avó foi útil para eu lavar meu cérebro.  Porque minha cabeça estava colonizada. Estava enganada sobre a nossa rica cultura. Dantes todo o dito de Joaquim era verdade para mim como se ele fosse Deus ou Santo. No entanto, minha avó deu-me essa aula e acabou-*me com as mentiras dele.
Por isso, achei muito importante compartilhar este saber contigo. Com propósito de lhe ajudar também a lavar a sua cabeça da colonização. A partir deste dia, comecei a ver Baloba com outro olhar, e não com aquele olhar de estranheza. Porque Baloba é casa de reza e não lugar dos yrans, nem dos satanases. Portanto, pelo fato de você não acreditar na Baloba como casa de oração e de louvor a Deus. Não tem direito de desrespeitar aqueles que têm essa crença.  
Também quero lhe dizer, por favor, não diga que tudo que falei aqui é pura mentira Com seu pobre argumento de que eu sou amarrado por coisas tradicionais. Baloba não é coisa tradicional, meu querido e minha querida, mas sim cultural. Por isso, repito, não diga que falei mentira. Por amor de Deus, não fale isso. Pois tudo que narrei é verdade. Embora eu tiver colocado um pouco de sal, lembre-se qualquer que seja história tem um pouco de sal. Sem sal à história não será gostosa, isso não significa que devemos pôr muito sal como os colonizadores. Contudo, só um pouquinho de sal para que a história possa estar boa.
Camarada leitor, como estou terminando esta narrativa, então, aproveito para lhe dizer três coisas: primeiro, quero lhe dizer que agora texto é seu. Por isso, por favor, preencha  as lacunas que deixei. Segundo, como já falei, falo com outras palavras, eu não escrevi esta narrativa para lhe obrigar a abandonar a religião dos colonizadores. Isso não é minha intenção. Se pensar assim, repense. Eu a escrevi para lhe pedir que respeite a religião dos nossos avôs. Por fim, desculpe-me por não ter lhe contado meu nome deste início. Sou Bobirni Ié, uma menina que fala e sabe do que está falando. Também falo com autoridade.  Porque sou a filha de Djagra. Meu pai é régulo de Biombo. Já Imaginou se a filha dum régulo tem medo de falar? Quem o terá? Enfim, eu lhe agradeço por ter lido uma história de oito páginas, que poderia ser resumida em uma ou duas páginas. Muito obrigada que Ndjirapa lhe cubra com manta sagrada!





* Baloba- templo da reza da etnia pepel, também lugar onde se faz cerimonia para louvar Deus e as ancestrais.
Yran- demônio
Mintida- mentira
Nbludju- embrulho
Tchon- chão, porém neste texto tem sentido de terra, pátria e nação.
Nhu- senhor
* Pepel- nome de uma étnia na Guiné-Bissau
Biombo- uma região da Guiné-Bissau que fica na província norte, mas aqui trata do setor também que tem este nome, onde maioria de habitantes são pepelis.
Matchundadi- os homens que abusam da força, ou melhor, os super-homens que podem fazer tudo nem que a lei não permite, porque têm poder e força de fazer aquilo que eles querem.
Cana-cachaça
Tchur- defunto
* NdJirapa Có- foi um ancestral poderoso da etnia pepel, segundo a história ele foi primeiro a habitante de setor de Biombo, hoje, há um Radio comunitário em Biombo em sua homenagem  
Ntomam- nome de um ancestral muito poderoso da etnia e igual modo nome de uma Baloba em Bissau e em Biombo.
Cana- cachaça
Fidju-di-tchon- filho da terra


* * Kata- é um ritual da etnia pepel no qual uma família maternal leva uma menina para servir na Baloba. 
Toka-Tchur – tocar choro é uma cerimonia que as famílias fazem depois da morte de um familiar com intuito de alma deste possa ter paz no outro mundo.
Ianda-kabaz – é um ritual cultural da etnia pepel, no qual uma geração faz peregrinação aos lugares sagrados nomeadamente nas Balobas das ancestrais daquela mesma geração para fazer cerimonia e oração.
Kassamenti- casamento

**
* Balobeiro- homem responsável de conduzir as orações na Baloba
Balobeira- mulher responsável para conduzir as orações na Baloba
* Djagra- Djagra- um dos sete gerações (Djorson) da etnia pepel. De acordo com a cultura pepel são os homens desta geração que podem ser reis (régulo)
Regulo- rei

sábado, 11 de fevereiro de 2017



Valeriano Djú é graduado em contabilidade pela 
Escola Nacional da Administração (ENA) em 2011/2012. Atualmente, Graduando no curso de Bacharelado em Humanidade (BHU), pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - UNILAB. Desde muito cedo, apaixonou-se pela escrita como arma para libertação dos oprimidos, trazendo para a sociedade reflexões, criticas, através da sua aventura nos poemas, contos, fabulas e crônicas.




O ELEFANTE E O HIPOPÓTAMO

Era uma vez numa tabanca chamada “kidjorsi”, na vila de “pinhaguin”, havia uma discussão entre um Elefante e um Hipopótamo. O motivo da discussão era para descobrir quem dentre eles detinha mais força. Porém, era preciso muito tempo para saber que o Elefante, além de ser mais velho, tinha uma longa experiência de vida, inclusive, técnica da guerra, força física e energia para enfrentar qualquer embate, além disso, ele era rei da tabanca. Por essa razão, queria, com o seu poder e sua força, ser dono de todas as províncias que existiam nessa tabanca. Por sua vez, o Hipopótamo, que era mais novo, dispunha de uma boa estrutura física, do conhecimento e das táticas de luta e guerra. Devido à sua influência, tinha domínio sobre uma província e nunca queria perder a sua soberania. Assim, começou uma disputa intensa e interminável entre os dois animais. Nessa situação, o Elefante um dia disse ao Hipopótamo:
- Para que a tabanca se torne segura, é preciso que tire da sua província todos os animais perigosos que mais tarde possam contribuir para instabilidade do meu reinado!
E o Hipopótamo por sua vez, devido ao apoio que recebeu desses animais, recusou acatar a sugestão do Elefante e jurou dizendo:
- Juro que nunca vou me submeter, de alguma forma, ao senhor! Porque a província é minha, e fui eu que te ajudei em várias batalhas contra os inimigos para que você se torne um rei hoje.
 A situação se agravou ao longo dos tempos. Um dia, o Elefante decidiu chamar o Lobo para inteirá-lo da situação que assolava a tabanca, para que esse se sirva do intermediário entre ele e o Hipopótamo tentando resolver o conflito. O elefante explicou-lhe tudo o que ocorria entre ele e o Hipopótamo na tabanca.
E o Lobo, como costuma procurar o que lhe satisfaz, disse para si mesmo:
- Se os dois brigarem, como o Elefante já se encontra na velhice, com certeza vai perder a guerra, e eu serei chefe da tabanca.
Então, o lobo decidiu limpar um campo de 100 m² e chamou os dois para lutarem:
- Lutem um contra outro para ver quem tem mais força. Disse o lobo
Assim, os dois começaram a lutar. Mas como o Hipopótamo passava maior parte do seu tempo vivendo na água, não conseguiu aguentar o ritmo da luta do seu adversário, por isso, acabou por sofrer a derrota perante o Elefante.
Sendo assim, o Elefante chamou o Lagarto para ser dono da província do Hipopótamo. Os animais que estavam nessas zonas reclamavam sempre sobre a responsabilidade atribuída para o Lagarto. Nessa situação, começou uma nova discussão que envolveu desta vez os vizinhos do Hipopótamo, que contavam com o apoio do Lobo, contra os familiares do Lagarto, que tinham o apoio do Elefante e do Falcão.
A discussão resultou numa incessante disputa que continuou até hoje. Tudo porque o Leão, que era o dono da selva, se encontra na idade de velhice e já quer se despedir do seu trono (selva). Agora, a questão que entra em discussão entre esses animais é saber quem será o novo dono da selva, desde já que o dono já quer se despedir. Perante esse puxa-puxa, o problema só aumenta nessa tabanca e afeta todos os animais que lá vivem até hoje!

           

Kidjorsi-  palavra cuja  origem é da etnia pepel, em que significa tristeza
Pinhaguin- palavra cuja origem é da etnia pepel, em que significa pobreza  




domingo, 5 de fevereiro de 2017



 Ianes Augusto Cá é graduando do curso de Licenciatura em
Letras-Língua Portuguesa da Universidade
da Integração Internacional da Lusofonia 
Afro-Brasileira - UNILAB.



Já vão passando 43 chuvas!

Já me sentia num outro espaço. Espaço que nunca imaginava. Imaginava que tudo ia ser diferente. Diferente se as mentes fossem polidas. Polidas com os mais velhos. Velhos que metamorfoseiam verdadeira unidade. Unidade construída na baraca-garandi de COMO.  Como? O lugar que esquecemos. A palavra que esquecemos, e a questão que não conseguimos responder. Resposta não precisa de emoção. Emoção deveria andar junto com a razão. Razão de que todo mundo se apropria. Apropria para defesa de interesse. Interesse individual que cresce no nosso coração a cada dia. Dias que Confundam e fundam a nossa tabanca. Tabanca regada de sangue. Sangue dos nossos valentes. Valentes que são desconhecidos.  Desconhecidos por causa da ambição. Ambição de queimar a nossa história. História dos ancestrais e dos verdadeiros heróis. Heróis que ergueram os nossos rostos ao mundo. Mundo onde o sol nasce no ocidente. Ocidente que nos orienta. Orienta o nosso destino. Destino que ninguém deseja. Deseja palácio construído? Construído com o dinheiro de Itté. Si fere ala, fere bonde na fere.
Agora que vinha perceber que já me encontrava num outro espaço diferente. Assim que eu vinha perceber que já está passando quarenta e três chuvas e as pétalas continuam murchando. Percebi que quando mais chove a terra fica mais seca. Eu nunca percebia que o clima estava quente porque eu já habituava de ver as folhas secando e as flores murchado. Isso não fazia nenhuma diferença para mim. Também percebi que, a cada percurso que eu fazia, a terra ficava mais seca. O sol me queimava ainda mais, e as minhas células ficavam mais flácidas e frouxas, consequentemente mortas. Comecei a dar conta de bokera no canto dos lábios das pessoas. Isso me dava vontade de aproximar das pessoas a cada minuto que passava. Para entender o que estava passando na tabanca. Descobria a tristeza no rosto das mulheres. Descobri uma alegria de inocentasco no rosto das crianças inocentes fungulidos de cunfento.  A esperança construída nas memórias que nunca chega no presente.  Be fenai! Be falaca golé. Que vento me soprou até aqui. É o vento Leste. Já me encontra no Leste. Foi aqui onde foi projetada a terra prometida. Lembrei sem mínimo detalhes. Aqui foi a partida da caminhada para terra prometida. O percurso ainda é longe. Vamos preparar as crianças para darem continuidade à caminhada. Eu sei que minha perna não aguenta mais este percurso. Sei que um dia vamos chegar à terra prometida pelos heróis. Mas devem continuar caminhando. Caminhando... caminhando... nunca esqueçam de olhar para trás. Atrás nos orienta o destino. Nos dá motivo para caminhar. Perceberemos que muitos tombaram no caminho durante o percurso. Valorizaremos os sangues derramados à procura do tesouro da terra prometida. Terra dos ancestrais. Mas cuidado, Si fere ala, fere bonde na fere.
Já não consigo mais olhar pelo buraco da fechadura. Eu já ficava com medo de tanta tontaria que via quando espreitava no buraco. Ficava a olhar tantas coisas absurdas da realidade da qual eu faço parte. Despistei os olhos rapidamente! Eu queria fingir que isso não estava acontecendo na minha tabanca. Podia fingir, sim! Mas o coração não deixava. É melhor eu fingir, para ninguém saber que carreguei a causa. Mas é muito difícil. Eu sei que carregou a causa também. Sei que carregamos a causa. Faça dela o que é necessário. Quando percebi que parei de olhar no buraco, botei a minha mão para o meu lado esquerdo me acertei com um pedaço do pano. Com tanto medo das coisas que os meus olhos me mostravam, decidi amarar pano no rosto para cobrir os meus olhos. A realidade foi violenta. É violenta. Deixa trauma. Incomoda a mente. Eu percebi que a realidade que os nossos olhos nos mostra, é diferente da realidade de quem vive com olhos fechados. Eu percebi que precisava de algum respaldo para entender essa moransa. Fiquei quarenta e três minutos escutando os mais velhos falando. Eu só escuto palavras confusas sobre o destino da terra. Parecia que só os guerrilheiros que tinha resposta para tudo. Que pena que eu não conseguia entender os sons que emitem. Tudo estava confuso. Tudo estava nublado como a chuva do mês de agosto. Eu preciso da resposta moderna. Por isso vamos levar em mente, Si fere ala, fere bonde na fere.
Com o rosto virado em direção à academia. Sem muito esforço. Já me dava com Candé. Candé! chamei-a. É mulher! Disseram que a mulher só presta na porta de casamento. Vamos deixar as nossas filhas livres para fazerem as suas escolhas. Quando a mulher quer fazer, faz melhor ainda que o homem. Por isso, vou deixar a minha filha estudar. Não dependerá de nenhum homem macho-machista-manchado. Por isso vou aderir à ideologia de Chimamanda Ngozi Adichie Sejamos todos feministas. Eu sou feminista. Seja feminista. Mas cuidado! Eu não sou feminista afeminado. Sou feminista homem. Eu sou feminista que gosta de mulher. Por isso eu sei falar da mulher. A mulher é doce. A mulher é amável. A mulher é parceira. A mulher é companheira. A mulher é intelectual. Usa intelecto! Mas não se equivoca, saiba hoje que eu sou feminista homem. Eu não sou matchu-mindjer-molimoli. No entanto, não esqueça que não devemos associar com as pessoas de fere bonde.
Quando levei muito tempo a pensar sobre a mulher interiormente, sem soltar nenhuma palavra, Candé se aproximou com aquele jeito de garandessa. - abó kê ku bu fala? Quando comecei a questioná-la sobre a tabanca, respondeu direto sem dar as voltas. Ela conhece a realidade. Estudou essa realidade. Tinha resposta à ponta da língua. Sem hesitar disse Os contornos de abertura política multipartidária em 1994 também mereceram análise e seu desdobramento desenhou uma nova configuração política na nação [...], quando as narrativas étnicas ganham nova roupagem diante das narrativas dos discursos nacionalistas no cenário político, originando a perda de prestígio da referida unidade nacional na política contemporânea[...]. Aí comecei a refletir sobre o verdadeiro problema da tabanca. A verdadeira história. Que foi contada muito mal. Tudo começou mal. Fui atrás da história. A história tem resposta para tudo. A partir do momento que tiver noção sobre a raiz do problema, acredito que o barco tomará o novo rumo. Por isso, eu tive consciência que eu devia Bé fenai! Bé falaca golé.Bé falaca gonga. Isso está na minha veia. É a parte fundamental da minha identidade. Comecei a perceber que o livro da história de cassudo foi rasgado. Quem pode me tirar a identidade a qual eu luto para consolidar a todo dia. Eu falo simplesmente na língua da minha terra. A língua que me pertence. Não se estranhe. A história veio de muito longe. Na verdade, devemos tentar voltar ao tempo para pegar pedaços de papéis rasgados para restaurar a nossa própria história. Por isso, eu estou neste barco com Candé. Se um dia a força da maré me faz soltar o barco, não me deixem afogar. Me segurem no braço. Até Ntchudé vamos chegar.
Eu já sabia que a história narra as coisas como aconteceram. Precisava de alguma coisa para entender a minha realidade. A minha sociedade. Eu não preciso de Marx. Nem de Durkheim que fará de Weber. O que é que eu faço com Comte se eu possa ter Texeira? Ele sabe falar melhor. Ele chupou o leite da nossa mamá. Conhece melhor. Estudou melhor.  Por isso dirigi-me em direção a ele. Ele já sabia o que eu queria. Começou sem que eu fizesse a pergunta. A desigualdade social e crises económicas é um problema que ameaça a consolidação de democracia em [casa]. A lógica do sistema capitalista, das grandes empresas e seu mecanismo de dominação e de desigualdade, atrelado ao mercado dos votos, está muito presente na democracia [de casa], o que pode ser visto também como uma forma de exclusão [....]. Talvez isso possa ser uma parte do problema. Ainda vou continuar a procurar. Levo em consideração o que você colocou, Texeira. Eu preciso de tranquilidade. Nós precisamos de tranquilidade. Como é que podemos viver na tranquilidade? Tiram e subtraem o nosso quilo. Nisso vale pensar. Si fere ala, fere bonde na fere.
Como é que eu posso sair deste sofá para chegar ao meu quarto com rosto amarado. Eu não estou conseguindo ver o caminho. Eu não tinha alguém que podia me ajudar. Quando levantei-me do sofá, lembrei-me que na verdade já vão passando quarenta e três chuvas. A cada chuva, milhares de histórias imbecis. Cada chuva dura mil e uma noites. A cada chuva faz tanto sol de quaresma a cada dia. A cada chuva, muita tristeza e incerteza. A cada chuva engavetam-se ódio e rancor. A cada chuva fazia-se muita tempestade. A cada chuva destrói-se a esperança. A cada chuva aumenta a ambição no coração dos irmãos. A cada chuva enfraquece-se a união. A cada chuva, murchavam-se as crianças. A cada chuva apaga o caminho para o nosso destino. A cada chuva sujam-se as nossas mãos de sangue. A cada chuva piora a nossa história. A cada chuva aumenta a diáspora. A cada chuva.... a cada incerteza... a cada história..., as pessoas fazem  fere bonde como  fere. Saiba que Si fere ala, fere bonde na fere.
O que me fez chegar até esse ponto. Não foi isso que eu queria contar. Veja como o ato de contar deixa as coisas fluírem e as vezes confusas. Não existe regra de como contar. O barco está voltando para trás. Não consigo imaginar aonde podemos parar. Mas é urgente. Urgente entregá-lo aos pilotos vestidos de roupas brancas. Pilotos sem mancha nas roupas. Assim consegue-se avançar. Os pilotos velhos de tanto viajar sem chegar ao destino passam a exalar cheiro de peixe podre. Não conseguem mais lavar essa roupa para ficar limpa. Já é uma mancha. A mancha de sangue. Sangue derramada pela intriga. Vão descansar. Já fizeram tantas coisas que…, por isso merecem desonra. Merecem medalha de ferro para enaltecer a vossa desonra.  Assim, deixarão para futura geração uma mensagem: Si fere ala, fere bonde na fere.
Já passaram tantas chuvas que a minha memória não consegue mais imaginar tanta violência que já passou. Eu não sei como é que vou chegar ao meu quarto. Passei a porta do quarto. Ahm! Eu já estou na porta do banheiro. Eu vou ficar no banheiro. Talvez consiga me molhar o corpo. Porque já caíram muitas chuvas que nunca me molharam. Quem quiser eu deixo um cantinho para ele junto de mim. Talvez no banheiro consiga sentir o cheiro das coisas. Pode ser cheiro ruim. Mas o importante é sentir cheiro e molhar o corpo com gotas de água que pingam no chuveiro. Eu vou ficar no banheiro. Eu estou me sentindo mais confortável aqui do que quando eu estava no quarto. De tantas coisas que passam no quarto é melhor distanciar. Se não ficará sujo rapidamente. Eu não vou deixá-lo totalmente. Mas sempre eu volto ali para espreitar. Eu tenho muitas pessoas queridas lá. Que já estão cansadas de viver assim. Mas não têm jeito. Você tem que escolher. Como disse Odete Semedo “Entre ser e amar”. Ser do banheiro ou amar o quarto, vice-versa. Você é quem decide.  Talvez aqui podemos admitir que Si fere ala, fere bonde ko fere.

Mas escuta! Por favor! Homens valentes! Possuidores da terra! Herdeiros fixos. Quando voltam não esqueçam que têm um irmão que vive no banheiro. Que sente tanta paixão de voltar para o quarto. Mas não tem proteção. Vive lá só quem tem proteção. Por isso decido passar um tempinho no banheiro. Deixa-me desfrutar desse cheiro. Deixa-nos desfrutar um pouquinho para esquecer do tempo perdido. Ainda lembra-se duma coisa: o Quarto é de todos nós. No dia que eu estiver cansado do banheiro, procurarei caminho para o quarto. Lembre-se que eu vou voltar para o quarto. No entanto, que fique registrado, Si fere ala, fere bonde na fere.

Obs: Eu escolhi algumas palavras/frases na Língua Fula e crioulo como parte da minha identidade, da nossa identidade, "guinendade".

Itté - Fogo.
Si fere ala, fere bonde ko fere - Se não há saída, uma má saída é saída.
Si fere ala, fere bonde na fere - Se não há saída, uma má saída não é saída.
Bé fenai! Bé falaca golé. Bé falaca gonga - Mentem-se! Não gostam de trabalhar. Não gostam           de verdade