--> expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

sábado, 18 de março de 2017




Ricardo Aguinelo Aquixinco Gomes Cá (Ritchas) é Licenciando em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Membro de Academia de Estudantes de Letras da UNILAB. Tem paixão pela literatura e gêneros literários como: contos, poemas, crônicas e memoriais.




O ÚLTIMO GRITO NA VARANDA DA DONA INÊS

Eu estava na varanda da minha casa, nunca imaginaria uma situação tão desconfortável como a de tratar do enterro da minha mãe.
Richard era o mais velho da minha casa, às vezes ele protegia-nos de colegas que ora vinham arrumar confusão onde brincávamos, ora atrapalhavam as nossas brincadeiras. Às vezes brincávamos de pneus de carro, porque nessa altura a nossa Tabanca não tinha muitos brinquedos, às vezes perdíamos o almoço, porque a nossa madrasta, Inês, dava-nos castigo por causa das nossas brincadeiras.  Nessa situação, tudo que tínhamos para comer ela dava ao seu filho, Kamporta, que não saía conosco para brincar. Por isso, nós ficávamos com fome, às vezes, até dormíamos com fome. Meu irmão Matcho não aguentava ficar com fome, ele chorava bastante à noite; mesmo ao chorar a nossa madrasta mandava-o calar, porque se não correria risco de apanhar outro castigo: de não beber água.
Minha existência durante 14 anos na nossa casa se transformou numa cadeia de obrigações exigidas pela nossa madrasta.  Eu e meu irmão éramos a parte constante dessa situação, mas estávamos unidos com carinho e amor. Até que um dia decidi fugir da casa da minha madrasta e fui morar na casa de um amigo, para ingressar numa escola que tinha distância de sete quilômetros da minha Tabanca, porque eu achava que era única saída para ajudar o meu irmão. Mesmo nessa idade, eu trabalhava para sustentar os meus estudos num restaurante perto da casa do meu amigo, onde passei a morar; enquanto que meu irmão ficava naquela pior situação em que o deixei, e também sofrendo bastante por minha fuga.  Isso me fazia um peso enorme tanto que ficava de cabeça para baixo, vinham os amigos próximos para saber o que acontecia comigo, mas não comentava nada porque não conseguia entender o porquê das coisas.
Havia pessoas que se solidarizavam comigo, relevando objetos e materiais escolares para que eu não pudesse desistir das aulas. A surpresa foi grande e muito dolorosa. A Marta, minha grande amiga, trazia Carta na mão, e eu todo ansioso para saber o que estava escrita nela, depois de eu abrir e ler a carta fiquei surpreendido pela forma como ela conseguiu ter na posse a carta escrita pela minha mãe sobre a nossa madrasta, Inês, descobri que a minha mãe tinha deixado um montante de dinheiro com a funcionária que tralhava nos correios, e através desta carta podíamos entender as trajetórias e as correspondências que deveríamos fazer para desbloquear o dinheiro. Que crueldade por parte das duas mulheres que se consideravam as mais justas e certas da Tabanca! E isso me induziu a pensar o quanto fiquei perdido sem poder acreditar na existência do verbo amar...
Quatro anos depois, consegui desbloquear o dinheiro e mandei procurar o meu irmão para vir à casa onde passei a morar, quando chegou, entreguei-lhe boa parte do dinheiro para investir no comércio e nas propinas da escola. Decidi partir para outro país do mundo sem saber qual era o meu destino, mas o meu objetivo era estudar na faculdade.
Quatro dias depois, fui ao cemitério onde estava minha mãe para me despedir dela, pois estava me indo embora da minha cidade e do meu país. Ao chegar ao túmulo, parei e coloquei nele alguns vasos de flores prediletos; sem rancor, pedi a ela que gostaria que me ajudasse a concretizar o meu sonho. Ao sair do portão, encontrei um homem maravilhoso que me perguntou:
- O que estás a fazer aqui?
Respondi ao velho: - pedir ajuda à minha mãe no seu túmulo.
Ele, ao saber do falecimento da minha mãe, ficou surpreendido, foi até à casa da minha madrasta para saber dela, mas infelizmente ela e o seu filho já estavam mortos, na hora que eu estava com a minha maleta na mão no portão de aeroporto para partir.  Assim, de repente parou um carro no qual estava aquele senhor, ele desceu do carro, abraçou-me e disse-me: - confie na sua estrela, o milagre foi realizado; e foi nessa hora que eu tive a certeza de que o melhor da vida é amar, porque o verdadeiro amor transcende o tempo e o espaço. Assim me despedi da minha terra.