
Ricardo Aguinelo Aquixinco Gomes Cá (Ritchas) é Licenciando em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade da Integração
Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Membro de Academia de Estudantes de Letras da UNILAB. Tem paixão pela literatura e gêneros literários como: contos, poemas, crônicas e memoriais.
O ÚLTIMO GRITO NA VARANDA DA DONA INÊS
Eu
estava na varanda da minha casa, nunca imaginaria uma situação tão
desconfortável como a de tratar do enterro da minha mãe.
Richard
era o mais velho da minha casa, às vezes ele protegia-nos de colegas que ora
vinham arrumar confusão onde brincávamos, ora atrapalhavam as nossas
brincadeiras. Às vezes brincávamos de pneus de carro, porque nessa altura a
nossa Tabanca não tinha muitos brinquedos, às vezes perdíamos o almoço, porque
a nossa madrasta, Inês, dava-nos castigo por causa das nossas
brincadeiras. Nessa situação, tudo que
tínhamos para comer ela dava ao seu filho, Kamporta, que não saía conosco para
brincar. Por isso, nós ficávamos com fome, às vezes, até dormíamos com fome.
Meu irmão Matcho não aguentava ficar com fome, ele chorava bastante à noite;
mesmo ao chorar a nossa madrasta mandava-o calar, porque se não correria risco
de apanhar outro castigo: de não beber água.
Minha
existência durante 14 anos na nossa casa se transformou numa cadeia de
obrigações exigidas pela nossa madrasta.
Eu e meu irmão éramos a parte constante dessa situação, mas estávamos
unidos com carinho e amor. Até que um dia decidi fugir da casa da minha
madrasta e fui morar na casa de um amigo, para ingressar numa escola que tinha
distância de sete quilômetros da minha Tabanca, porque eu achava que era única
saída para ajudar o meu irmão. Mesmo nessa idade, eu trabalhava para sustentar
os meus estudos num restaurante perto da casa do meu amigo, onde passei a
morar; enquanto que meu irmão ficava naquela pior situação em que o deixei, e
também sofrendo bastante por minha fuga.
Isso me fazia um peso enorme tanto que ficava de cabeça para baixo,
vinham os amigos próximos para saber o que acontecia comigo, mas não comentava
nada porque não conseguia entender o porquê das coisas.
Havia
pessoas que se solidarizavam comigo, relevando objetos e materiais escolares
para que eu não pudesse desistir das aulas. A surpresa foi grande e muito
dolorosa. A Marta, minha grande amiga, trazia Carta na mão, e eu todo ansioso
para saber o que estava escrita nela, depois de eu abrir e ler a carta fiquei
surpreendido pela forma como ela conseguiu ter na posse a carta escrita pela
minha mãe sobre a nossa madrasta, Inês, descobri que a minha mãe tinha deixado
um montante de dinheiro com a funcionária que tralhava nos correios, e através
desta carta podíamos
entender
as trajetórias e as correspondências que deveríamos fazer para desbloquear o
dinheiro. Que crueldade por parte das duas mulheres que se consideravam as mais
justas e certas da Tabanca! E isso me induziu a pensar o quanto fiquei perdido
sem poder acreditar na existência do verbo amar...
Quatro
anos depois, consegui desbloquear o dinheiro e mandei procurar o meu irmão para
vir à casa onde passei a morar, quando chegou, entreguei-lhe boa parte do
dinheiro para investir no comércio e nas propinas da escola. Decidi partir para
outro país do mundo sem saber qual era o meu destino, mas o meu objetivo era estudar
na faculdade.
Quatro
dias
depois, fui ao cemitério onde estava minha mãe para me despedir dela, pois
estava me indo embora da minha cidade e do meu país. Ao chegar ao túmulo, parei
e coloquei nele alguns vasos de flores prediletos; sem rancor, pedi a ela que
gostaria que me ajudasse a concretizar o meu sonho. Ao sair do portão, encontrei
um homem maravilhoso que me perguntou:
-
O que estás a fazer aqui?
Respondi
ao velho: - pedir ajuda à minha mãe no seu túmulo.
Ele,
ao saber do falecimento da minha mãe, ficou surpreendido, foi até à casa da
minha madrasta para saber dela, mas infelizmente ela e o seu filho já estavam
mortos, na hora que eu estava com a minha maleta na mão no portão de aeroporto
para partir. Assim, de repente parou um
carro no qual estava aquele senhor, ele desceu do carro, abraçou-me e disse-me:
- confie na sua estrela, o milagre foi realizado; e foi nessa hora que eu tive
a certeza de que o melhor da vida é amar, porque o verdadeiro amor transcende o
tempo e o espaço. Assim me despedi da minha terra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário