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domingo, 5 de fevereiro de 2017



 Ianes Augusto Cá é graduando do curso de Licenciatura em
Letras-Língua Portuguesa da Universidade
da Integração Internacional da Lusofonia 
Afro-Brasileira - UNILAB.



Já vão passando 43 chuvas!

Já me sentia num outro espaço. Espaço que nunca imaginava. Imaginava que tudo ia ser diferente. Diferente se as mentes fossem polidas. Polidas com os mais velhos. Velhos que metamorfoseiam verdadeira unidade. Unidade construída na baraca-garandi de COMO.  Como? O lugar que esquecemos. A palavra que esquecemos, e a questão que não conseguimos responder. Resposta não precisa de emoção. Emoção deveria andar junto com a razão. Razão de que todo mundo se apropria. Apropria para defesa de interesse. Interesse individual que cresce no nosso coração a cada dia. Dias que Confundam e fundam a nossa tabanca. Tabanca regada de sangue. Sangue dos nossos valentes. Valentes que são desconhecidos.  Desconhecidos por causa da ambição. Ambição de queimar a nossa história. História dos ancestrais e dos verdadeiros heróis. Heróis que ergueram os nossos rostos ao mundo. Mundo onde o sol nasce no ocidente. Ocidente que nos orienta. Orienta o nosso destino. Destino que ninguém deseja. Deseja palácio construído? Construído com o dinheiro de Itté. Si fere ala, fere bonde na fere.
Agora que vinha perceber que já me encontrava num outro espaço diferente. Assim que eu vinha perceber que já está passando quarenta e três chuvas e as pétalas continuam murchando. Percebi que quando mais chove a terra fica mais seca. Eu nunca percebia que o clima estava quente porque eu já habituava de ver as folhas secando e as flores murchado. Isso não fazia nenhuma diferença para mim. Também percebi que, a cada percurso que eu fazia, a terra ficava mais seca. O sol me queimava ainda mais, e as minhas células ficavam mais flácidas e frouxas, consequentemente mortas. Comecei a dar conta de bokera no canto dos lábios das pessoas. Isso me dava vontade de aproximar das pessoas a cada minuto que passava. Para entender o que estava passando na tabanca. Descobria a tristeza no rosto das mulheres. Descobri uma alegria de inocentasco no rosto das crianças inocentes fungulidos de cunfento.  A esperança construída nas memórias que nunca chega no presente.  Be fenai! Be falaca golé. Que vento me soprou até aqui. É o vento Leste. Já me encontra no Leste. Foi aqui onde foi projetada a terra prometida. Lembrei sem mínimo detalhes. Aqui foi a partida da caminhada para terra prometida. O percurso ainda é longe. Vamos preparar as crianças para darem continuidade à caminhada. Eu sei que minha perna não aguenta mais este percurso. Sei que um dia vamos chegar à terra prometida pelos heróis. Mas devem continuar caminhando. Caminhando... caminhando... nunca esqueçam de olhar para trás. Atrás nos orienta o destino. Nos dá motivo para caminhar. Perceberemos que muitos tombaram no caminho durante o percurso. Valorizaremos os sangues derramados à procura do tesouro da terra prometida. Terra dos ancestrais. Mas cuidado, Si fere ala, fere bonde na fere.
Já não consigo mais olhar pelo buraco da fechadura. Eu já ficava com medo de tanta tontaria que via quando espreitava no buraco. Ficava a olhar tantas coisas absurdas da realidade da qual eu faço parte. Despistei os olhos rapidamente! Eu queria fingir que isso não estava acontecendo na minha tabanca. Podia fingir, sim! Mas o coração não deixava. É melhor eu fingir, para ninguém saber que carreguei a causa. Mas é muito difícil. Eu sei que carregou a causa também. Sei que carregamos a causa. Faça dela o que é necessário. Quando percebi que parei de olhar no buraco, botei a minha mão para o meu lado esquerdo me acertei com um pedaço do pano. Com tanto medo das coisas que os meus olhos me mostravam, decidi amarar pano no rosto para cobrir os meus olhos. A realidade foi violenta. É violenta. Deixa trauma. Incomoda a mente. Eu percebi que a realidade que os nossos olhos nos mostra, é diferente da realidade de quem vive com olhos fechados. Eu percebi que precisava de algum respaldo para entender essa moransa. Fiquei quarenta e três minutos escutando os mais velhos falando. Eu só escuto palavras confusas sobre o destino da terra. Parecia que só os guerrilheiros que tinha resposta para tudo. Que pena que eu não conseguia entender os sons que emitem. Tudo estava confuso. Tudo estava nublado como a chuva do mês de agosto. Eu preciso da resposta moderna. Por isso vamos levar em mente, Si fere ala, fere bonde na fere.
Com o rosto virado em direção à academia. Sem muito esforço. Já me dava com Candé. Candé! chamei-a. É mulher! Disseram que a mulher só presta na porta de casamento. Vamos deixar as nossas filhas livres para fazerem as suas escolhas. Quando a mulher quer fazer, faz melhor ainda que o homem. Por isso, vou deixar a minha filha estudar. Não dependerá de nenhum homem macho-machista-manchado. Por isso vou aderir à ideologia de Chimamanda Ngozi Adichie Sejamos todos feministas. Eu sou feminista. Seja feminista. Mas cuidado! Eu não sou feminista afeminado. Sou feminista homem. Eu sou feminista que gosta de mulher. Por isso eu sei falar da mulher. A mulher é doce. A mulher é amável. A mulher é parceira. A mulher é companheira. A mulher é intelectual. Usa intelecto! Mas não se equivoca, saiba hoje que eu sou feminista homem. Eu não sou matchu-mindjer-molimoli. No entanto, não esqueça que não devemos associar com as pessoas de fere bonde.
Quando levei muito tempo a pensar sobre a mulher interiormente, sem soltar nenhuma palavra, Candé se aproximou com aquele jeito de garandessa. - abó kê ku bu fala? Quando comecei a questioná-la sobre a tabanca, respondeu direto sem dar as voltas. Ela conhece a realidade. Estudou essa realidade. Tinha resposta à ponta da língua. Sem hesitar disse Os contornos de abertura política multipartidária em 1994 também mereceram análise e seu desdobramento desenhou uma nova configuração política na nação [...], quando as narrativas étnicas ganham nova roupagem diante das narrativas dos discursos nacionalistas no cenário político, originando a perda de prestígio da referida unidade nacional na política contemporânea[...]. Aí comecei a refletir sobre o verdadeiro problema da tabanca. A verdadeira história. Que foi contada muito mal. Tudo começou mal. Fui atrás da história. A história tem resposta para tudo. A partir do momento que tiver noção sobre a raiz do problema, acredito que o barco tomará o novo rumo. Por isso, eu tive consciência que eu devia Bé fenai! Bé falaca golé.Bé falaca gonga. Isso está na minha veia. É a parte fundamental da minha identidade. Comecei a perceber que o livro da história de cassudo foi rasgado. Quem pode me tirar a identidade a qual eu luto para consolidar a todo dia. Eu falo simplesmente na língua da minha terra. A língua que me pertence. Não se estranhe. A história veio de muito longe. Na verdade, devemos tentar voltar ao tempo para pegar pedaços de papéis rasgados para restaurar a nossa própria história. Por isso, eu estou neste barco com Candé. Se um dia a força da maré me faz soltar o barco, não me deixem afogar. Me segurem no braço. Até Ntchudé vamos chegar.
Eu já sabia que a história narra as coisas como aconteceram. Precisava de alguma coisa para entender a minha realidade. A minha sociedade. Eu não preciso de Marx. Nem de Durkheim que fará de Weber. O que é que eu faço com Comte se eu possa ter Texeira? Ele sabe falar melhor. Ele chupou o leite da nossa mamá. Conhece melhor. Estudou melhor.  Por isso dirigi-me em direção a ele. Ele já sabia o que eu queria. Começou sem que eu fizesse a pergunta. A desigualdade social e crises económicas é um problema que ameaça a consolidação de democracia em [casa]. A lógica do sistema capitalista, das grandes empresas e seu mecanismo de dominação e de desigualdade, atrelado ao mercado dos votos, está muito presente na democracia [de casa], o que pode ser visto também como uma forma de exclusão [....]. Talvez isso possa ser uma parte do problema. Ainda vou continuar a procurar. Levo em consideração o que você colocou, Texeira. Eu preciso de tranquilidade. Nós precisamos de tranquilidade. Como é que podemos viver na tranquilidade? Tiram e subtraem o nosso quilo. Nisso vale pensar. Si fere ala, fere bonde na fere.
Como é que eu posso sair deste sofá para chegar ao meu quarto com rosto amarado. Eu não estou conseguindo ver o caminho. Eu não tinha alguém que podia me ajudar. Quando levantei-me do sofá, lembrei-me que na verdade já vão passando quarenta e três chuvas. A cada chuva, milhares de histórias imbecis. Cada chuva dura mil e uma noites. A cada chuva faz tanto sol de quaresma a cada dia. A cada chuva, muita tristeza e incerteza. A cada chuva engavetam-se ódio e rancor. A cada chuva fazia-se muita tempestade. A cada chuva destrói-se a esperança. A cada chuva aumenta a ambição no coração dos irmãos. A cada chuva enfraquece-se a união. A cada chuva, murchavam-se as crianças. A cada chuva apaga o caminho para o nosso destino. A cada chuva sujam-se as nossas mãos de sangue. A cada chuva piora a nossa história. A cada chuva aumenta a diáspora. A cada chuva.... a cada incerteza... a cada história..., as pessoas fazem  fere bonde como  fere. Saiba que Si fere ala, fere bonde na fere.
O que me fez chegar até esse ponto. Não foi isso que eu queria contar. Veja como o ato de contar deixa as coisas fluírem e as vezes confusas. Não existe regra de como contar. O barco está voltando para trás. Não consigo imaginar aonde podemos parar. Mas é urgente. Urgente entregá-lo aos pilotos vestidos de roupas brancas. Pilotos sem mancha nas roupas. Assim consegue-se avançar. Os pilotos velhos de tanto viajar sem chegar ao destino passam a exalar cheiro de peixe podre. Não conseguem mais lavar essa roupa para ficar limpa. Já é uma mancha. A mancha de sangue. Sangue derramada pela intriga. Vão descansar. Já fizeram tantas coisas que…, por isso merecem desonra. Merecem medalha de ferro para enaltecer a vossa desonra.  Assim, deixarão para futura geração uma mensagem: Si fere ala, fere bonde na fere.
Já passaram tantas chuvas que a minha memória não consegue mais imaginar tanta violência que já passou. Eu não sei como é que vou chegar ao meu quarto. Passei a porta do quarto. Ahm! Eu já estou na porta do banheiro. Eu vou ficar no banheiro. Talvez consiga me molhar o corpo. Porque já caíram muitas chuvas que nunca me molharam. Quem quiser eu deixo um cantinho para ele junto de mim. Talvez no banheiro consiga sentir o cheiro das coisas. Pode ser cheiro ruim. Mas o importante é sentir cheiro e molhar o corpo com gotas de água que pingam no chuveiro. Eu vou ficar no banheiro. Eu estou me sentindo mais confortável aqui do que quando eu estava no quarto. De tantas coisas que passam no quarto é melhor distanciar. Se não ficará sujo rapidamente. Eu não vou deixá-lo totalmente. Mas sempre eu volto ali para espreitar. Eu tenho muitas pessoas queridas lá. Que já estão cansadas de viver assim. Mas não têm jeito. Você tem que escolher. Como disse Odete Semedo “Entre ser e amar”. Ser do banheiro ou amar o quarto, vice-versa. Você é quem decide.  Talvez aqui podemos admitir que Si fere ala, fere bonde ko fere.

Mas escuta! Por favor! Homens valentes! Possuidores da terra! Herdeiros fixos. Quando voltam não esqueçam que têm um irmão que vive no banheiro. Que sente tanta paixão de voltar para o quarto. Mas não tem proteção. Vive lá só quem tem proteção. Por isso decido passar um tempinho no banheiro. Deixa-me desfrutar desse cheiro. Deixa-nos desfrutar um pouquinho para esquecer do tempo perdido. Ainda lembra-se duma coisa: o Quarto é de todos nós. No dia que eu estiver cansado do banheiro, procurarei caminho para o quarto. Lembre-se que eu vou voltar para o quarto. No entanto, que fique registrado, Si fere ala, fere bonde na fere.

Obs: Eu escolhi algumas palavras/frases na Língua Fula e crioulo como parte da minha identidade, da nossa identidade, "guinendade".

Itté - Fogo.
Si fere ala, fere bonde ko fere - Se não há saída, uma má saída é saída.
Si fere ala, fere bonde na fere - Se não há saída, uma má saída não é saída.
Bé fenai! Bé falaca golé. Bé falaca gonga - Mentem-se! Não gostam de trabalhar. Não gostam           de verdade

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