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sábado, 13 de maio de 2017






Imelson Ntchala Cá, graduando em Letras Língua Português pela Universidade da integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira-UNILAB. Membro de grupo de pesquisa "Escritas do corpo feminino nas literaturas em língua portuguesa". Bolsista de Projeto de extensão: “A formação crítica do professor de línguas: saberes experienciais e teóricos em interação”.










AFINAL, ONDE SE ENCONTRA O SENTIDO, NO TEXTO OU NO LEITOR?


INTRODUÇÃO
Nas nossas andanças universitárias e conversas acadêmicas, ainda na fase inicial, usamos e ouvimos a expressão do tipo “este texto é chato e não tem sentido”. Geralmente utilizamos essa expressão, quando estamos chateados, cansados e sufocados de tantos trabalhos e, por cima de tudo, somos obrigados a ler um texto, porque o professor pediu ou porque teremos que apresentar o seminário sobre esse mesmo texto. Pode ser que por motivos de cansaço, não conseguimos construir o sentido a partir da nossa leitura, então achamos que o texto é que não tem sentido. Então esse pequeno texto objetiva trazer algumas reflexões sobre a construção do sentido a partir do texto, partindo de pressuposto teórico de Costa (2004).

A CONSTRUÇÃO DO SENTIDO NO TEXTO POR INTERLOCUTORES
Em diferentes situações, algumas produções literárias chegam a ser julgadas e consideradas incompreensíveis, inaceitáveis e sem sentido para determinado grupo. As mesmas produções são consideradas relevantes, maravilhosas, aceitáveis e cheias de sentido para outro determinado grupo.  Aparecem duas visões antagônicas, entre dois ou mais leitores sobre o mesmo texto.
Esse fenômeno é muito frequente, ao considerarmos um texto incompreensível, ao ponto de afirmar que é um texto sem sentido, estamos afirmando de uma maneira implícita que não existe o sentido no texto que estamos lendo. Estamos igualmente afirmando que ao lermos não encontramos o sentido no texto. Desse modo, pensamos que o sentido se encontra apenas no texto, o que não é verdade.
Desconhecemos que o sentido é construído por cada leitor ou interlocutor, dependendo da situação e meio em que se encontra. Nós, enquanto leitores, é que construímos o sentido no texto. Por isso, um texto pode fazer sentido para um leitor, e para outro não, dependendo do contexto e da situação em que estamos inseridos enquanto leitores.
Alguém já deve ter ouvido duas pessoas (leitores) discutindo sobre a relevância de um texto. Um leitor acha e considera o texto sensacional e cheio de sentido. Enquanto que outro leitor considera o mesmo texto horrível, sem sentido. Reparem que os dois leitores leram o mesmo texto e tiveram posicionamentos diferentes sobre a mesma obra.
O problema é que o leitor que considera o texto maravilhoso ele conseguiu construir os sentidos a partir da sua leitura. Ao passo que o outro que achou o texto horrível não conseguiu construir o sentido a partir da sua leitura. Um texto pode fazer sentido e funcionar de maneira plena para uns interlocutores e parecer incompreensível, inadequada, inaceitável e sem sentido para determinado grupo. O sentido de texto é construído por leitor. A construção de sentido num texto dá-se por vários condicionantes. Condicionantes estes que podem ser linguísticos e extralinguísticos.
Reparem nesse exemplo de telefonema de um filho para um pai:
-Alo papa
-Alo
-Óleef ?
-Ó namindjona, ó si nu?
-O saonamindjona
-umkranda.
Nesse trecho, nós estamos perante um texto, pois segundo Costa (2004) o texto é qualquer produção linguística, falada ou escrita que faz sentido numa situação de comunicação. O exemplo do texto acima citado pode gerar uma discussão para dois leitores diferentes, um pode achar o mesmo sem sentido, enquanto outro pode o achar como texto com sentido. Pode fazer sentido para um grupo, e para outro não fazer.
Para um leitor que é da etnia pepel e que entende essa língua, certamente o texto acima citado tem sentido, visto que esse leitor vai conseguir construir o sentido a partir do texto, mas, para quem não é dessa etnia, jamais verá o sentido nesse texto e vai achar que este é um amontoado de palavras e sem sentido, ou seja, não conseguiu construir o sentido enquanto leitor. Mas é o mesmo texto lido por esses dois leitores. Isso quer dizer que o sentido não está no texto, mas sim é construído pelo leitor.
Para melhorar as coisas, podemos pegar o mesmo texto e traduzi-lo em crioulo, língua que todos os guineenses entendem.
Alo papa
Alo
Kuma kusta?
Nsta bem e abo?
Nsta bem
E assim propi.
Reparem que o mesmo texto acima escrito, que parecia não ter sentido para alguns leitores guineenses que não são da etnia pepel e que não entendem essa língua, agora apresenta o sentido pleno para esses leitores guineenses. O trecho de texto acima escrito passa a ter o sentido, porque esses mesmos leitores conseguiram construir o sentido a partir do texto. Mas o mesmo continua a ser visto sem sentido para o leitor que não sabe a língua crioulo e nem a língua pepel. 
É importante salientar que o fenômeno de achar um texto sem sentido e com sentido por cada leitor pode acontecer mesmo na língua entendida e falada por dois leitores diferentes, ou seja, um texto pode ser escrito em língua portuguesa, língua pela qual dois leitores se entendem, mas um pode achar que o texto tem sentido, e outro não. Não é o fato de saber ou não língua que está em causa, o que realmente está em causa na construção do sentido é a capacidade de leitura e de construção de sentido a partir do texto. O que realmente queremos mostrar é que o sentido não está apenas no texto, mas sim é construído pelo leitor. O sentido não está completo no texto, o leitor vai contribuir na construção do sentido a partir da sua experiência e de seu entendimento.
Então não julgue, não ache, e nem afirme que o texto não tem sentido, reconheça que é você enquanto leitor que não está conseguindo construir sentido, na sua leitura do texto. Pode ser que o texto seja “chato” pelo fato de ser difícil de compreender, por motivo de linguagem nele usada, mas jamais existe texto sem sentido.

Valorizemos as obras dos nossos escritores!

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